Management 3.0: entrevista com Jurgen Appelo na USI 2015

Jurgen Appelo no evento da OCTO USI 2015O Management 3.0 é o assunto mais falado este ano. Os participantes da conferência de 2015 tiveram a grande sorte de aprender diretamente com o autor: Jurgen Appelo.

Além de realizar sua apresentação na USI Jurgen Appelo gentilmente concedeu uma entrevista à OCTO.

OCTO : O que você considera particularmente novo e disruptivo no Management 3.0?

Jurgen Apelo : A inovação é focar na gestão do sistema ao invés de pessoas. Por exemplo, nosso sistema de gestão de bônus. Não sou eu quem decido como ele funciona. Eu considero que não é parte do meu trabalho. Acredito que os empregados sabem melhor que eu qual deve ser o nível de performance deles. Por isso deixo que eles decidam entre eles. Eu apenas garanto que o processo funcione da melhor maneira possível. Essa é minha responsabilidade já que fui eu que introduzi essa ideia.  Funciona da mesma maneira que nos modelos tradicionais de supervisor e colaboradores. Eu considero que minha responsabilidade não é motivar as pessoas a melhorarem seu desempenho usando mecanismos de recompensa e punição. Meu trabalho é implantar um sistema que faça com que as pessoas gostem de melhorar o seu próprio desempenho.

OCTO : Quem colocou esse sistema em prática? Foi você quem propôs este sistema de gestão bônus, ou foi sua equipe?

Jurgen Appelo : Eu propus a ideia pra equipe e disse: “Parece uma boa ideia, vamos tentar! “. Primeiro abordei a equipe para obter a adesão das pessoas. Depois discutimos o que funcionava e o que não funcionava no sistema que usávamos. Muitas vezes eu sou o único responsável por tomar certos tipos de decisão, por exemplo, definição de orçamentos ou qual a missão da empresa. Muitas outras coisas são delegadas aos empregados para que eles mesmos gerenciem.

OCTO : Você tem reuniões regulares com seus subordinados?

Jurgen Appelo : Não, nós temos muitas outras oportunidades de ter conversas diretas, mas eu não tenho um encontros regulares planejados com cada um deles. Acho que essa é um prática obsoleta.

OCTO : Você identificou um perfil específico das empresas interessadas em Management 3.0?

Jurgen Appelo : Eu não acho que há qualquer tipo perfil especial, mas vejo algumas categorias de organizações:

  • Startups que já estão fazendo muitos experimentos e não querem se transformar em organizações hierárquicas com processos pesados. Elas buscam práticas de gestão modernas e são atraídas pelas idéias que eu compilei a partir de muitas fontes diferentes – que não são criações minhas, eu as pesquisei em muitos lugares distintos.
  • Empresas mais tradicionais que sentem que estão perdendo mercado e querem se modernizar. É difícil para elas porque eles mudar a partir de todo um sistema já instalado na empresa. Só que sempre vale a pena tentar! Há vários exemplos de empresas que conseguiram fazer a transição.

OCTO : Você tem um exemplo de uma organização mais tradicional?

Jurgen Appelo : Há uma empresa na Holanda que Frederic Laloux menciona no livro “Reinventando as organizações”. Ela se transformou completamente.

Adquiri minha experiência trabalhando com startups. Eu não sou um coach ou consultor, por isso não costumo fazer trabalhos de transição de empresas. No entanto, eu tenho conhecimento de vários relatos de empresas que  conseguiram fazer transições bem sucedidas.

OCTO : Na sua opinião, quais são as expectativas que gerentes podem ter sobre Management 3.0?

Jurgen Appelo : Primeiramente: menos trabalho! Há muitas coisas que você não precisa fazer, como por exemplo as avaliações de desempenho anuais. As pesquisas mostram que elas simplesmente não funcionam e você pode ganhar muito tempo se parar de fazê-las.

A seguir você acaba conseguindo definir a quantidade correta de gestores. Muitas pessoas acabam se tornando gestores porque era a única maneira de construir uma carreira. Elas não queriam ser gerentes, mas era a única maneira de conseguir um salário melhor. Essas pessoas vão ficar muito felizes em finalmente poder ter opções diferentes. Quanto a mim, eu passei a gostar muito mais meu trabalho. O mesmo aconteceu com meus funcionários!

OCTO : Que tipo de gerentes são atraídos pelas ideias do Management 3.0?

Jurgen Appelo : Aqueles que não têm medo de experimentar coisas inovadoras e criativas. Para alguns gestores de grandes organizações que trabalham processos tradicionais que ninguém quer mais adotar. Esses gerentes têm a responsabilidade e fazer a conexão com o mundo exterior que ainda funciona com o modo tradicional. Geralmente isso implica num trabalho adicional para poder criar esta conexão.

Jurgen Appelo na USI: "Mude a si mesmo"

OCTO : Você já conhece casos de grandes empresas tradicionais em que gestores experientaram delegar para  suas equipe a gestão da operação?

Jurgen Appelo : Sim, há alguns anos, um amigo nos Estados Unidos me disse que seu chefe lhe deu um envelope com bônus para ser dividido com sua equipe. Ele decidiu deixar os membros da equipe escolherem a forma de distribuir o bônus. A equipe rapidamente decidiu dar metade do valor para um  dele e distribuir o restante em partes iguais. Foi incrível! A equipe teve o prazer de reconhecer a contribuição excepcional de um deles. Ninguém reclamou sobre o trabalho do gerente. Mas para conseguir isso foi necessário dar uma explicação para o chefe. É preciso ter  coragem para fazer experimentos em sua equipe e para defendê-los explicando os outros stakeholders.

OCTO : Qual a principal dificuldade enfrentada quando se começa ?

Jurgen Appelo : Todas as práticas que compartilho no meu livro são sugestões. São coisas que você pode tentar, mas não há resultados garantidos simplesmente porque cada organização é diferente. A yoga é uma boa metáfora: você pratica yoga porque a princípio é bom para saúde. No entanto, nem todas as práticas não são adequadas para todos e você deve ter a inteligência para escolher um professor. É a mesma coisa com as práticas de Management 3.0: são coisas que funcionam em algumas  empresas e que você pode tentar aplicar e adaptar para o seu contexto.

O problema é que muitas empresas sem sequer tentar já dizem “Isso não funciona para nós” !

Às vezes isso não acontece. Por exemplo, na minha equipe nós mudamos nossa forma de trabalhar aplicando OKR (“Objectives / Key results” – Objetivos / Resultados-chave). Isso evita esse problema. Nós mantemos o seguinte: as pessoas devem definir seus próprios objetivos. Mas vamos mudar a forma como fazemos. Nós compartilhamos nossas experiências on-line para as pessoas verem o que estamos tentando, e parece ser amplamente apreciada.

OCTO : Você tem convicções que evoluíram com os aprendizados ao longo dos anos ?

Jurgen Appelo : Eu aprendi muito sobre novas práticas, mas todos elas se encaixam na filosofia da “Gerenciar o sistema, não as pessoas”. Por exemplo, tive uma experiência de ser membro de um Comitê de Inovação com uma caixa de sugestões. Essa iniciativa fracassou porque as primeiras idéias enviadas foram todas rejeitadas pela comissão. Depois disso, ninguém mais propôs ideias. Isto é o que eu chamaria de Gestão prática 2.0: bem-intencionada, mas ineficaz. Agora eu digo: permitam que os funcionários avaliem idéias! Práticas surgem, vêm e vão, mas os princípios permanecem.

OCTO : Você avalia regularmente seu sistema?

Jurgen Appelo : Sim, temos retrospectivas regulares – junto com a equipe fazemos uma avaliação da saúde do sistema a cada dois meses para analisar o que está funcionando e o que não está funcionando. Nós sempre experimentamos maneiras  diferentes de fazer as retrospectivas. Mas sendo honesto, nós criamos uma cultura na qual quase todos os problemas são abordados assim que surgem. Nós não precisamos esperar as retrospectivas para discutí-los, mas ainda assim acho que é uma boa ideia para realizar retrospectivas.

OCTO : Por onde começar?

Jurgen Appelo : Definir como por onde começar não é importante. Algumas áreas são mais fáceis do que outras: é muito mais fácil de discutir “mapas pessoais” que alteram o sistema de compensação. É preferível que se trabalhe na absorção de uma nova cultura corporativa antes de pensar em mudar a maneira de remuneração de pessoal. Da mesma maneira que acontece com Yoga, algumas posturas são para praticantes avançados. Porém, não há nenhuma ordem entre as práticas mais fáceis. Tente algo que você acha que é simples e inofensivo: a “caixa Kudos” ou “Mapas pessoais” são bem simples e todo mundo gosta.

Jurgen Appelo explicando mapas pessoais na USI

Jurgen Appelo explicando mapas pessoais na USI

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